| Paris Reidhead |
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Uma reflexão profunda e impactante sobre o real significado de ser cristão Como surgiu esta mensagem De todos os sermões que entreguei em mais de 50 anos como pregador e instrutor da Palavra de Deus, este – “Dez siclos de prata e uma camisa” – é o único cujo desenvolvimento me sinto impulsionado a explicar. Depois de orar, tive consciência de que a mensagem que deveria entregar era uma que começara a preparar para pregar na igreja que eu pastoreava em Nova Iorque, naquela época. Contudo, não trouxera comigo as anotações que havia feito. Eu as deixara num arquivo em meu gabinete pastoral. Então peguei um envelope que se achava sobre a mesa do quarto e no verso dele anotei os textos bíblicos que deveria ler e algumas ideias que me ocorreram. Abri a Bíblia no texto – Juízes 17 – e coloquei o envelope ali, para marcar o lugar. Colocando-me totalmente nas mãos de Deus, encaminhei-me para o templo, onde umas quatrocentas ou quinhentas pessoas já aguardavam, esperando ouvir o que o Senhor tinha a lhes dizer por meu intermédio. Recordo-me de que orei nos seguintes termos: “Senhor, hoje, na verdade, não estou preparado. Então lanço-me totalmente em tuas mãos.” Em meu coração, tive a impressão de ouvir a resposta: “E isso é tão ruim assim?” Entreguei a mensagem e fiz o apelo. Em pouco tempo, a frente da igreja ficou lotada de pessoas quebrantadas, buscando a Deus. Pouco depois, a conferência se encerrou, voltei para Nova Iorque e retomei meu ministério nessa cidade. Cerca de dez anos depois, encontrei-me com um irmão da comunidade de Bethany, em Washington, onde agora eu estava ministrando e onde ainda estou. Esse homem me disse: – Paris, preciso lhe dizer que Deus tem usado aquele seu sermão “Dez Siclos de Prata e uma Camisa” muitas e muitas vezes em minha vida. No momento, não entendi direito a que ele estava se referindo, pois nunca mais pregara essa mensagem. É verdade que, vez por outra, utilizava algumas ideias dela em outras pregações. Entretanto nunca a repetira exatamente como naquela ocasião. Só a pregara na íntegra uma única vez. Uma ou duas semanas depois, o Sr. Harry Conn, de Illinois, esteve em Washington e me convidou para jantar. Quando estávamos jantando, ele me disse: – Eu compro dezenas de fitas daquela sua pregação “Dez Siclos de Prata e Uma Camisa” para distribuir. Deus tem usado essa mensagem para falar ao coração de muita gente. Repliquei-lhe que se ele ainda tivesse uma, por favor, me mandasse uma cópia, pois queria saber o que eu havia dito. Alguns dias depois, recebi a fita. Como não possuo um toca-fitas no gabinete, ouvi-a num pequeno gravador de ditar cartas, num microfone manual. Pelo fato de aquilo já estar meio distante no tempo e o som ligeiramente distorcido, escutei aquela mensagem sem perfeita consciência de quem estava falando. De vez em quando, sentia ímpetos de exclamar: “Isso mesmo!! Eu gostaria de ter pregado isso!” Mas logo em seguida, me dava conta de que era eu... Não, não; na verdade, não era eu. Compreendi então que, naquela terça-feira de manhã, Deus pudera entregar aquela mensagem ao seu povo porque eu me achava total e completamente dependente dele. De uma coisa o leitor pode ter certeza: eu não tenho mérito algum por nada de bom que há nessa mensagem, nem pelas bênçãos que ela contém. Nos últimos dezesseis anos, já se venderam milhares de cópias dessa pregação e muitos dos que as compraram também fizeram milhares de regravações. Nunca mais preguei esse sermão e nunca mais vou pregá-lo. Nunca o transcrevi nem imprimi para distribuição e jamais o farei. Aqui, então, está a mensagem tal qual o Senhor a entregou. Ele que, certa vez, já havia decidido falar por meio da jumenta de Balaão, novamente falou por intermédio de outro que se achava totalmente na dependência dele. Introdução Hoje eu gostaria de falar sobre o tema “Dez Siclos de Prata e Uma Camisa”, que encontramos em Juízes 17. Vou ler esse capítulo e também partes dos capítulos 18 e 19, para que o pano de fundo histórico fique bem claro. “Havia um homem da região montanhosa de Efraim cujo nome era Mica.” Vejamos um pouco do contexto. Temos aqui uma situação problemática, pois os amorreus não permitiam que o povo da tribo de Dã tivesse acesso a Jerusalém. Então os danitas ficaram como que encurralados na região montanhosa de Efraim. É muito triste quando o povo de Deus permite que o mundo o pressione a ponto de deixá-lo numa posição difícil. Então eles não podiam ir a Jerusalém. E desse fato decorrem os problemas que iremos examinar aqui. Juízes 17.1-13 “Havia um homem da região montanhosa de Efraim cujo nome era Mica, o qual disse a sua mãe: Os mil e cem siclos de prata que te foram tirados, por cuja causa deitavas maldições e de que também me falaste, eis que esse dinheiro está comigo; eu o tomei. Então, lhe disse a mãe: Bendito do Senhor seja meu filho! Assim, restituiu os mil e cem siclos de prata a sua mãe, que disse: De minha mão dedico este dinheiro ao Senhor para meu filho, para fazer uma imagem de escultura e uma de fundição, de sorte que, agora, eu to devolvo. Porém ele restituiu o dinheiro a sua mãe, que tomou duzentos siclos de prata e os deu ao ourives, o qual fez deles uma imagem de escultura e uma de fundição; e a imagem esteve em casa de Mica. E, assim, este homem, Mica, veio a ter uma casa de deuses; fez uma estola sacerdotal e ídolos do lar e consagrou a um de seus filhos, para que lhe fosse por sacerdote. Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto. “Havia um moço de Belém de Judá, da tribo de Judá, que era levita e se demorava ali. Esse homem partiu da cidade de Belém de Judá para ficar onde melhor lhe parecesse. Seguindo, pois, o seu caminho, chegou à região montanhosa de Efraim, até à casa de Mica. Perguntou-lhe Mica: Donde vens? Ele lhe respondeu: Sou levita de Belém de Judá e vou ficar onde melhor me parecer. Então, lhe disse Mica: Fica comigo e sê-me por pai e sacerdote; e cada ano te darei dez siclos de prata, o vestuário e o sustento. O levita entrou e consentiu em ficar com aquele homem; e o moço lhe foi como um de seus filhos. Consagrou Mica ao moço levita, que lhe passou a ser sacerdote; e ficou em casa de Mica. Então, disse Mica: Sei, agora, que o Senhor me fará bem, porquanto tenho um levita por sacerdote.” Juízes 18.1-6 “Naqueles dias, não havia rei em Israel, e a tribo dos danitas buscava para si herança em que habitar; porquanto, até àquele dia, entre as tribos de Israel, não lhe havia caído por sorte a herança. Enviaram os filhos de Dã cinco homens dentre todos os da sua tribo, homens valentes, de Zorá e de Estaol, a espiar e explorar a terra; e lhes disseram: Ide, explorai a terra. Chegaram à região montanhosa de Efraim, até à casa de Mica, e ali pernoitaram. Estando eles junto da casa de Mica, reconheceram a voz do moço, do levita; chegaram-se para lá e lhe disseram: Quem te trouxe para aqui? Que fazes aqui? E que é que tens aqui? Ele respondeu: Assim e assim me fez Mica; pois me assalariou, e eu lhe sirvo de sacerdote. Então, lhe disseram: Consulta a Deus, para que saibamos se prosperará o caminho que levamos. Disse-lhes o sacerdote: Ide em paz; o caminho que levais está sob as vistas do Senhor.” Juízes 18.14-21 “Os cinco homens que foram espiar a terra de Laís disseram a seus irmãos: Sabeis vós que, naquelas casas, há uma estola sacerdotal, e ídolos do lar, e uma imagem de escultura e uma de fundição? Vede, pois, o que haveis de fazer. Então, foram para lá, e chegaram à casa do moço, o levita, em casa de Mica, e o saudaram. Os seiscentos homens que eram dos filhos de Dã, armados de suas armas de guerra, ficaram à entrada da porta. Porém, subindo os cinco homens que foram espiar a terra, entraram e apanharam a imagem de escultura, a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de fundição, ficando o sacerdote em pé à entrada da porta, com os seiscentos homens que estavam armados com as armas de guerra. Entrando eles, pois, na casa de Mica e tomando a imagem de escultura, a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de fundição, disse-lhes o sacerdote: Que estais fazendo? Eles lhe disseram: Cala-te, e põe a mão na boca, e vem conosco, e sê-nos por pai e sacerdote. Ser-te-á melhor seres sacerdote da casa de um só homem do que seres sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel? Então, se alegrou o coração do sacerdote, tomou a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de escultura e entrou no meio do povo. Assim, viraram e, tendo posto diante de si os meninos, o gado e seus bens, partiram.” O levita Então os fatos são esses. Isso não faz parte da história dos juízes propriamente ditos. Trata-se de uma coleção de relatos que mostram como estava a condição social do povo daquele período. Como não havia rei em Israel, cada um agia da maneira que lhe parecia certa. Vemos, então, que como Mica não podia ir a Jerusalém, mas tendo certa devoção religiosa, ele resolveu construir, em sua propriedade, uma réplica do santuário de Deus. Ergueu ali o que segundo ele seria uma construção adequada e preparou os elementos do tabernáculo, entre os quais uma estola sacerdotal. Além disso, fez também alguns objetos de culto dos povos dos arredores – as imagens e o ídolo do lar, o que Deus havia proibido. Apesar de tudo, porém, ao que parece, ele tinha o desejo de fazer as coisas da melhor maneira possível. Então, pegou um pouco do mundo e um pouco de Israel, ou seja, daquilo que Deus revelara a seu povo. Misturou esses elementos e no fim obteve algo que achou que agradaria ao Senhor. Pouco depois, apareceu ali um jovem pregador que viajava pela região, vindo de Belém de Judá, e, obviamente, Mica ficou encantado. O rapaz era levita, mas a mãe dele era da tribo de Judá. Ele próprio era levita, mas, na lei de Moisés, Deus havia dado permissão para que os levitas se casassem com pessoas de outras tribos. De modo que eles podiam se unir a outras tribos. O que acontecia era que esse jovem não estava gostando muito da vida que tinha em Belém. Na verdade, todos os levitas recebiam sustento especial. Contudo, parece que ele tinha certa ânsia de viajar pelo mundo, como se seu pé coçasse para sair andando. Então partiu de sua cidade a ver se poderia melhorar sua condição. Achava bom ser levita. Contudo pensava que deveria haver boas oportunidades associadas com essa função. E foi assim que chegou à casa de Mica. Parou ali e o dono da casa convidou-o a entrar. Em seguida, pediu-lhe que se tornasse sacerdote. Por fim, fez um acordo com ele, dizendo: – Seja nosso sacerdote aqui. Eu lhe darei dez siclos de prata e uma camisa. No texto diz “vestuário”. Entretanto sabemos que o vestuário do povo daquela época se chamava “gelavia”, e era um enorme – eu ia dizer “camisolão”. Não sei se era exatamente isso, mas pelo menos era algo assim. Então, Mica lhe deu, em pagamento, as roupas, uma muda de vestimenta sacerdotal e mais os dez siclos de prata por ano. Ele achou que isso seria um bom meio de vida e resolveu permanecer com ele, participando daquela mistura de idolatria que havia na casa de Mica. Aí vieram os filhos de Dã. Esses danitas deveriam ter expulsado os amorreus, mas descobriram que estava sendo meio difícil desalojá-los. Então saíram à procura de algum povo que fosse mais fácil de derrotar. Como vimos, eles chegaram à casa de Mica e o levita lhes disse que seguissem em paz. Vimos também que eles encontraram pessoas que viviam segundo o costume dos sidônios, num lugar chamado Laís. Estavam em paz e não havia ninguém para protegê-los. Aqueles danitas deduziram então que pode-riam ter facilidade para tomar a terra. Posteriormente os outros homens da tribo foram lá juntamente com aqueles que haviam mandado para conquistar a região. Então pensaram que como haviam encontrado aquela área com a ajuda do jovem levita, seria maravilhoso se pudessem continuar tendo a assistência dele. Assim pensando, foram à casa de Mica e pegaram tudo que este havia feito. E na verdade, aquilo não custara barato para ele, pois gastara duzentos siclos de prata só em uma das peças. Então, apoderaram-se de tudo e tomaram posse daqueles bens e se foram, levando consigo o levita. Isso deve ter sido uma dura perda para Mica. O jovem levita, porém, ajustou-se muito bem à situação. É incrível observar o quanto ele era flexível e com que facilidade aceitou a mudança, racionalizando o tempo todo. Logo enxergou que era bem mais importante trabalhar para uma tribo do que para uma única família. Podia ministrar a mais pessoas. Viu que isso era sensato e achou justificativas para tudo. Adaptou-se perfeitamente à ideia, sem nenhum drama de consciência. E “pôs a mão na boca” enquanto aqueles homens pegavam os objetos na pequena capela que Mica havia construído. Ademais, ele era um rapaz muito sábio. Em vez de seguir com eles na linha de frente, onde enfrentaria perigos, ou na retaguarda, onde também teria problemas, ele se postou no meio do grupo. Acho que ele era muito sábio mesmo. É que se Mica mandasse seus servos atrás do grupo, ele estaria a salvo, cercado de soldados. Pragmatismo Como podemos definir essa atitude e como tudo isso se aplica à nossa geração? Será que eu estaria muito errado se falasse em “religião utilitária” ou em “cristianismo vantajoso”? Ou em um “Deus jovem”? Gostaria de apontar o fato de que, em nossa época, o pensamento dominante é o pragmatismo. Creio que todos compreendem o que é que chamo de pragmatismo. É a ideia de que se algo dá certo então é verdadeiro. Se algo tem sucesso, é bom. Então o teste a que submetemos todas as práticas, todos os princípios, todas as verdades, tudo a que chamamos de ensino é o seguinte: Ele dá certo? Funciona? Pois bem. De acordo com a lei do pragmatismo, alguns dos maiores fracassados de todos os tempos foram homens a quem Deus honrou grandemente. Vejamos Noé, por exemplo. Ele foi um ótimo construtor naval. Contudo sua principal atividade não era propriamente fazer embarcações; era pregar. Como pregador, porém, ele foi um fracasso. Só conseguiu ganhar a esposa, os três filhos e as esposas deles. Teve apenas sete convertidos em 120 anos de ministério. Ninguém o consideraria um pregador eficiente. A maioria das juntas missionárias lhe teria pedido que se retirasse, muito antes disso. Então, como construtor naval, ele até que se saiu muito bem, mas como pregador foi um fracasso. Avançando mais alguns anos, encontramos outro desses homens. O nome dele é Jeremias. Ele era um excelente pregador, mas bem deficiente no que diz respeito a resultados práticos. Se fôssemos avaliar seu insucesso em termos de percentual, provavelmente teria um número bem alto. Vemos na Bíblia que esse profeta não obteve sucesso junto ao povo, nem com o pessoal da realeza. E até os seus colegas de ministério foram contrários ao profeta e não queriam nada com ele. Ao que parece, o único a quem ele agradava era... Deus. Com os outros, porém, era um claro fracasso. Vejamos agora outra pessoa muito conhecida, o Senhor Jesus Cristo. Por qualquer padrão que o avaliemos, veremos que ele também foi um fracassado. Nunca conseguiu organizar uma igreja, nem denominação. Não construiu nenhuma escola, nem fundou uma junta missionária. Nunca publicou um livro. Nunca foi capaz de obter nenhum dos recursos ou instrumentos que nós encontramos, e que são tão úteis no ministério. E eu não estou sendo sarcástico; eles são úteis mesmo. O Senhor pregou durante cerca de três anos. Curou milhares de enfermos. Deu pão a outros milhares de pessoas. No entanto, ao encerrar seu ministério terreno, após sua ressurreição, ele se revelou a apenas 120 ou 500 seguidores. Aliás, no dia em que ele fora preso, um homem afirmou: – Se todos o abandonarem, Senhor, eu não o farei. Serei capaz de morrer pelo Senhor. Jesus olhou para ele e replicou: – Pedro, você não conhece seu coração. Nesta madrugada, quando o galo cantar, você vai me negar três vezes. E realmente aqueles homens o abandonaram e fugiram. Portanto, a julgar pelos padrões de nossa geração, aliás, de qualquer geração, o Senhor Jesus foi um grande fracasso. Então agora a questão é a seguinte: qual é o padrão de sucesso, ou seja, por que critérios vamos avaliar nossa vida e ministério? E a pergunta que vamos fazer a nós mesmos é: “Para mim, Deus é um fim em si mesmo ou apenas um meio para eu atingir meus objetivos pessoais?” O fato é que, bem cedo na vida, teremos de decidir se vamos enxergar a Deus como um fim ou um meio. Nossa geração mostra-se predisposta a valorizar e a dar toda a honra a qualquer um que tenha sucesso, independentemente de essa pessoa haver resolvido essa questão ou não. Se esse indivíduo estiver conseguindo realizar o serviço direitinho, bom, temos de reconhecer que está tudo bem, não é? Então nossa geração irá dizer: Então, logo no início de nosso ministério ou de nossa caminhada cristã, temos de resolver a questão: “Sou um levita que vai servir ao Senhor por dez siclos de prata e uma camisa?” Nesse caso, talvez sirvamos aos homens em nome de Deus, e não ao próprio Senhor. Embora aquele moço fosse levita e exercesse uma função religiosa, ele estava procurando um lugar para ficar. Queria um serviço que lhe trouxesse o reconhecimento humano, que lhe proporcionasse senso de aceitação e segurança. Enfim, queria um lugar onde pudesse “brilhar”, de acordo com os valores que eram importantes para ele. Todo o seu interesse era atuar numa função religiosa. Portanto seu cargo teria de ser um trabalho religioso. Por isso, ficou muito feliz ao saber que ali na casa de Mica havia uma “vaga”. Ele se convencera de que seu serviço valia dez siclos de prata e uma camisa e estava disposto a trabalhar para quem lhe pagasse isso. Se por acaso aparecesse alguém que lhe oferecesse mais, passaria a trabalhar para essa outra pessoa. Como ele atribuíra a si mesmo esse valor, calculou que sua atividade, seus serviços religiosos eram apenas um meio para atingir um fim. Pelo mesmo raciocínio, ele via Deus apenas como um meio para alcançar seus objetivos. Humanismo Para compreendermos bem as implicações desses fatos para o nosso tempo, teremos de voltar atrás uns 100 ou 150 anos e examinar um conflito que sobreveio ao cristianismo. Logo após os grandes avivamentos que ocorreram nos Estados Unidos sob a liderança de Finney, quando Deus derramou do seu Espírito maravilhosamente em várias regiões do país, o inimigo desferiu um forte ataque contra nossa fé na Europa, sob a forma da Alta Crítica. Darwin havia apresentado a sua “Teoria da Evolução”. Alguns filósofos assimilaram essa teoria, incorporando-a ao seu pensamento. E certos teólogos a aplicaram à Bíblia. Então, podemos situar esse ataque frontal à Palavra de Deus por volta de 1850. É fato que Satanás sempre a atacou, mas dessa vez foi uma verdadeira “temporada de caça” às Escrituras e à igreja. Voltaire, por exemplo, chegou a declarar que ele ainda veria a Bíblia se tornando uma relíquia, ou seja, uma peça encontrada apenas em museus. Disse ainda que ela seria totalmente destruída, já que ele próprio estava vigorosamente apresentando muitos argumentos contra ela. E qual foi o resultado de tudo isso? O pensamento predominante na época foi o humanismo. Como poderíamos defini-lo? O humanismo é um ponto de vista filosófico segundo o qual a finalidade de tudo é a felicidade do homem. A razão de nossa existência é buscar a felicidade. Segundo essa linha filosófica, a salvação é simplesmente uma questão de obter toda a felicidade que pudermos nesta vida. Nietzche, por exemplo, afirma que a verdadeira satisfação da vida é ter poder. A posse do poder se justifica a si mesma. Afinal, o mundo é uma selva. Portanto, cabe ao homem buscar a própria felicidade, ou seja, tornar-se poderoso. Ademais, deve tornar-se poderoso por todos os meios de que puder lançar mão. Para ele, o homem só pode ser feliz se ocupar essa posição de ascendência sobre seus semelhantes, como vimos na adoração a Moloque. Mais tarde, esse tipo de pensamento iria dar origem a um Hitler, que assimilou o pensamento de Nietzche, adotando-o como seu guia básico e princípio operacional. Ele, inclusive, dizia a seus seguidores que estavam destinados a dominar o mundo. Portanto, quaisquer meios que empregarmos para alcançar esse fim constituem a nossa salvação. Mas alguém pode dizer: “Não, não. A finalidade da vida é buscar a felicidade, mas não é pela autoridade que temos a felicidade. Ela vem é dos prazeres sensuais.” Aí, então, vemos a filosofia existencialista que prevalece na França e que deu origem ao movimento beatnik, nos Estados Unidos, com sua baixa sensualidade. Como o homem é basicamente um animal regido por suas glândulas e seus picos de êxtase vêm da sua função glandular, a salvação é apenas encontrar o meio mais desejável de satisfazer esse lado do ser humano. Então o efeito do humanismo é isto: a finalidade de nossa existência é a felicidade do homem. Por essa época, o filósofo americano John Dewey conseguiu influenciar bastante os meios acadêmicos, convencendo os pedagogos de que não existem padrões absolutos. Não se devia dar às crianças nenhum padrão de conduta. Ele afirmava que a finalidade da educação era permitir que a criança se expressasse. Deviam deixar que ela expandisse aquilo que era e encontrasse a felicidade sendo o que quisesse ser. E foi assim que chegamos ao desregramento cultural. Cada indivíduo poderia fazer aquilo que achasse certo. Não existia um Deus para nos governar. Pelo que eles diziam, a Bíblia não contava mais. Ela não possuía mais autoridade. Já haviam provado que ela não era verdadeira. Deus não existia; já fora destronado. Ademais, ele não tinha um relacionamento pessoal com o ser humano. Jesus Cristo era apenas um mito, ou então um homem como outro qualquer. Era o que eles pensavam. Portanto, a finalidade de nossa existência era alcançar a felicidade. Cada um poderia criar as bases de sua própria felicidade e interpretá-la à sua maneira. Liberal, fundamental ou nenhum dos dois? Entretanto a religião precisava continuar existindo, pois muita gente ganhava a vida com ela. Tais pessoas precisavam justificar sua existência. Então, mais ou menos naquela época, 1850, a igreja se dividiu em dois lados. O primeiro era o dos liberais, que aceitavam a filosofia do humanismo. Esses tentavam provar a necessidade de se ter uma igreja, dizendo mais ou menos o seguinte:“Bom, não sabemos se existe céu. Não sabemos se existe inferno. Mas uma coisa nós sabemos: temos de viver aqui uns 70 anos. E sabemos também que a poesia, os pensamentos elevados e as aspirações nobres fazem muito bem ao ser humano. Portanto, é importante que venham à igreja aos domingos. Aí vamos ler-lhes alguns poemas. Vamos lhes fornecer alguns axiomas, alguns pensamentos e algumas regras de vida para orientá-los no seu dia a dia. Não poderemos lhes dizer nada sobre o que vai acontecer quando morrerem. Contudo podemos dizer o seguinte: se vierem aqui todos os domingos, nos ajudarem, pagarem as despesas e permanecerem conosco, tornaremos sua jornada na Terra bem mais fácil e confortável. Não poderemos garantir nada sobre o que irá acontecer quando morrerem. Mas podemos afirmar que se ficarem do nosso lado, nós os faremos muito felizes, enquanto estiverem vivos.” Então, a essência do liberalismo era mais ou menos isto: tentar pôr uma pitada de açúcar no café amargo da jornada terrena, para adoçá-lo um pouco. Como dissemos, a filosofia predominante é o humanismo, a ideia de que a finalidade da existência é a busca da felicidade. Assim temos na igreja outro grupo que assume uma posição oposta à dos liberais. Refiro-me aos fundamentalistas, o meu povo. Esses dizem:“Nós cremos que a Bíblia é o livro inspirado por Deus. Cremos na divindade de Jesus Cristo. Cremos no céu e no inferno. Cremos que Jesus morreu, foi sepultado, mas depois ressuscitou.” Mas não nos esqueçamos de que o pensamento central é o humanismo: a principal finalidade da vida é a busca da felicidade. E ele é como um mau cheiro que exala de uma fossa e toma conta do espaço todo. É como uma infecção, uma epidemia. Espalha-se por toda a parte. Assim, não demorou muito e nós também ficamos contagiados. Os fundamentalistas se reconheciam uns aos outros como tal pelo fato de dizerem “Nós cremos em tais e tais verdades!” A maioria deles era de homens que realmente conheciam a Deus. Mas dentro de pouco tempo, começaram a dizer: “São essas coisas que nos identificam como fundamentalistas.” E a segunda geração já dizia: “Nós nos tornamos fundamentalistas assim: cremos que a Bíblia é inspirada por Deus. Cremos na divindade de Jesus. Cremos que ele morreu, foi sepultado, mas ressuscitou. É desse modo que nos tornamos fundamentalistas.” Afinal, pouco depois, isso chegou à nossa geração. Ou seja, o plano de salvação consistia apenas em concordar intelectualmente com algumas afirmações doutrinárias. E uma pessoa era considerada crente simplesmente pelo fato de responder positivamente a quatro ou cinco perguntas que lhe faziam. Se ela respondesse “Sim” a certos quesitos, alguém abria um largo sorriso, dava-lhe um aperto de mão, um tapinha nas costas e dizia: Então, chegou-se a um ponto em que ser salvo era simplesmente concordar com um plano ou uma fórmula. A finalidade da salvação era tornar o homem feliz. Tudo porque o humanismo já havia penetrado em nosso meio. Se compararmos o fundamentalismo com o liberalismo de cem anos atrás, quando este se desenvolveu – pois não estou me limitando a um período de tempo – teríamos mais ou menos o seguinte: O liberalismo ensina que a finalidade da religião é tornar o homem feliz enquanto ele está vivo. Já o fundamentalismo diz que o objetivo dela é dar-nos felicidade depois que morrermos. De qualquer modo, pelo que eles dizem, a finalidade de todas as religiões é buscar a felicidade do homem. Para isso, os liberais afirmam: “Pelas reformas sociais e pela ordem política, vamos acabar com o dinheiro, com o alcoolismo, com as drogas e com a pobreza. Vamos criar o céu aqui na Terra! Vamos fazer o homem feliz enquanto ele estiver vivo! Não sabemos nada sobre o que acontecerá depois, mas queremos que todos sejam felizes enquanto viverem!” E eles tentaram. Contudo tiveram um tremendo choque com a Primeira Grande Guerra. E depois ficaram totalmente estarrecidos com a Segunda. Reconheceram que simplesmente não estavam conseguindo nada! O fundamentalismo, seguindo a mesma linha de pensamento, está sintonizado na mesma “frequência de onda”. Esse tipo de apelo é de natureza tão egoística como o diálogo de dois homens sentados num bar, combinando assaltar um banco, para obter uma fortuna sem trabalhar. Existe um jeito de fazer apelo aos pecadores que parece mais uma trama para se roubar o dinheiro de um posto de gasolina num sábado à noite. Na minha opinião, o humanismo é a filosofia mais fedorenta, mortal e desastrosa que saiu pelo ralo dos abismos do inferno. Ela penetrou em toda a nossa religião. E é um pensamento totalmente contrário ao cristianismo. Infelizmente, porém, raramente enxergamos isso. Voltando ao Mica, vemos aquele homem ali, querendo fazer uma igrejinha, com um sacerdote, orações e devocionais, simplesmente porque “Sei, agora, que o Senhor me fará bem”. Isso é egoísmo! Isso é pecado! O levita, por sua vez, concorda com tudo, pois quer um lugar para viver. Quer dez siclos de prata, uma camisa e seu alimento. Então, para ter o que deseja e Mica também ter o que quer, eles vendem Deus! Por dez siclos de prata e uma camisa! Essa é a maior traição que o homem pode cometer em todas as eras! E nós vivemos essa traição! E enquanto não retornarmos para o cristianismo, não sei como Deus poderá avivar a igreja. A fé cristã é algo que contrasta total e diretamente com esse fedorento humanismo, que se originou em nossa geração em nome de Cristo. Além disso, essa realidade se apresenta de forma tão sutil que se espalha por toda a parte. E o que é tal realidade? Em essência, trata-se do postulado filosófico, segundo o qual a finalidade de nossa existência é a busca da felicidade pessoal, apresentado em termos evangélicos e doutrinas bíblicas. Chegamos ao ponto de pensar que Deus reina no céu por causa da felicidade do homem, que Jesus Cristo se encarnou por causa da felicidade do homem, que os anjos existem... Tudo tem como objetivo a felicidade do homem. E eu declaro aqui que isso não é uma verdade cristã. E o homem não pode ser feliz? Não era propósito de Deus que o homem tivesse felicidade? Claro que sim, mas a felicidade não é o objetivo principal, e sim o resultado de algo. Respeito por toda forma de vida Quem levanta essa idéia é aquele homem notável que hoje está lá na África e é tão admirado pelos confusos pensadores de nossos dias, o querido Dr. Albert Schweitzer. Que Deus o abençoe! É um homem inteligentíssimo. É filósofo, médico, músico, compositor; sem dúvida alguma, uma pessoa brilhante! Mas ele é tão crente quanto essa flor que está aqui. Aliás, se ele dissesse que o era, consideraria isso um insulto. Ele não crê que Jesus Cristo tenha nenhuma importância para sua vida ou sua filosofia. O Dr. Schweitzer é humanista. Certa vez, o Dr. Schweitzer estava num barco, subindo o rio Congo em direção à sede de sua missão. Ia observando os oficiais do governo belga, com seus potentes rifles, atirando nos crocodilos que tomavam sol nos lamaçais à beira da água. Esses homens utilizavam um tipo de bala que explodia no interior dos animais e os jogava para o alto, por causa das contrações musculares. Mas talvez alguém me pergunte: É que, com vergonha o confesso, fiz o mesmo no rio Nilo. Então aqueles belgas estavam ali, praticando o que para eles era um esporte. Eles guardavam os animais em sacos, contando quantos haviam abatido. Além disso, penduravam um barbante no lugar onde guardavam as armas e davam pequenos nós neles para marcar o número de crocodilos que haviam matado. Uma tremenda destruição de vida! Foi assim que o Dr. Schweitzer veio a entender a essência de sua filosofia. Sabe o que era? Apenas três palavras: respeito pela vida. A vida dos crocodilos; a vida humana; qualquer tipo de vida. O meu amigo George Kline, que esteve conosco na semana passada e agora está voltando para o Gabão, achava-se a uns 70 ou 80 quilômetros da sede da missão do Dr. Schweitzer. E, não sei se sabem, mas o Dr. Schweitzer tem tanto respeito pela vida que não esteriliza seus instrumentos cirúrgicos. Sua sala de cirurgia é a mais suja da África. É que as bactérias são um tipo de vida. Ele não mata as nocivas para não correr o risco de matar as que não o são. Então vai deixando que todas se multipliquem juntas. Alguém havia lhe doado um órgão, bem como as condições para tocá-lo. Mas certo dia ele estragou. O George Kline, além de excelente organista, também sabe consertar esse tipo de instrumento. Nessa ocasião, ele foi visitar o Dr. Schweitzer, e este lhe disse: – George, será que você poderia consertar meu órgão? Então ele removeu a placa de madeira que fica na parte de trás do órgão e, para seu espanto, descobriu dentro dele um imenso ninho de baratas. Com seu zelo e entusiasmo de americano, George logo se pôs a pisar nas baratas, para não deixar nenhuma escapar com vida. Com a movimentação, o bom médico se aproximou e, com os cabelos arrepiados de horror, aliás, mais arrepiados que nunca, gritou: – Pare com isso imediatamente! Nesse instante, um dos rapazes da localidade aproximou-se e disse: – Pode deixar, Sr. Kline. Em seguida, ele se inclinou e foi cuidadosamente pegando-as uma a uma e colocando-as dentro de um saquinho, fechando a boca dele. Pôs todas ali e depois levou-as para a mata e as soltou lá. Então aí temos um homem que cria nessa filosofia de respeito pela vida. E ele se achava totalmente fiel a ela. Era perfeitamente coerente com o que pensava, mesmo no que dizia respeito a baratas ou a micróbios. Está vendo? Isso é humanismo. Isso é ser coerente. Agora pergunto: qual é a filosofia de missões? Qual é a filosofia da evangelização? Qual é a filosofia do crente? Se alguém me perguntar por que fui para a África, responderei que fui, basicamente, para aprimorar a justiça de Deus. Achava que não era certo aquele povo ir para o inferno sem que lhe déssemos uma chance de ser salvo. Então fui lá para dar àqueles pobres pecadores uma oportunidade de irem para o céu. É fato que não coloquei isso nesses termos. Contudo se analisarmos bem o que acabo de dizer, de que outro modo iremos defini-lo? É humanismo. Eu simplesmente estava utilizando a obra realizada por Jesus Cristo para alcançar um fim: melhorar as condições humanas, ou seja, diminuir o sofrimento e a infelicidade. E quando cheguei à África, descobri que, na verdade, eles não eram uns pobres pagãos ignorantes, vagando pelas matas, procurando alguém para lhes ensinar como se vai para o céu. Na realidade, eram monstros de iniquidade!!! Estavam vivendo em total desobediência ao conhecimento que tinham de Deus e que eu nem imaginava que eles possuíam. Eles mereciam era o inferno mesmo! Eles se recusavam a viver de acordo com a lei da sua consciência, a lei escrita no coração deles, e com o testemunho da natureza e da verdade que conheciam. Quando percebi isso, garanto que fiquei muito irado com Deus. Fiquei tão irado que, certo dia, orando, disse-lhe que ele fizera uma coisa horrível, mandando-me lá para ganhar aquelas pessoas que, pensava eu, estavam esperando alguém que lhes dissesse como poderiam ir para o céu. Assim que cheguei ali, entendi que elas sabiam tudo acerca do céu e não queriam ir para lá. Vi que elas amavam o pecado e desejavam continuar vivendo nele. A questão é que fora para aquele lugar motivado pelo humanismo. Vira fotos de leprosos, de gente com feridas. Vira fotos dos sepultamentos que eles realizavam. E não queria que aqueles seres humanos, meus semelhantes, fossem sofrer no inferno eternamente, depois de já terem tido uma existência tão infeliz na Terra. E foi lá, na África, que Deus começou a rasgar essa camada de humanismo que havia em mim. Foi naquele dia, dentro do meu quarto, com a porta trancada, que me pus a lutar com Deus. Estava tendo de encarar o fato de que as pessoas que eu julgava ser ignorantes e estar desejosas de saber como se vai para o céu, aquela gente que eu pensava estar clamando: “Venham pregar para nós!”, na realidade, não queria conversar nem comigo nem com mais ninguém. Não tinham interesse na Bíblia, nem em Cristo. Amavam seus pecados e queriam continuar vivendo daquele jeito. E naquela hora, naquele lugar, senti que aquilo tudo era uma grande farsa, uma brincadeira de mau gosto. Eu fora levado por “propaganda enganosa”. Minha vontade agora era retornar para minha terra. E ali, sozinho naquele quarto, quando eu buscava a Deus com toda a sinceridade do meu coração, tive a impressão de que ele me dizia: “Não fará justiça o juiz de toda a terra?’ Os pagãos estão perdidos. E eles irão para o inferno, não por não terem ouvido a mensagem do evangelho. Irão porque são pecadores que amam seu pecado e porque merecem o inferno. Mas não foi por causa deles que mandei você ir aí. Não foi por causa deles.” Escutei isso claramente, como escuto qualquer outro som, embora não fosse audível. Na verdade, era o eco de uma verdade eterna que estava penetrando em um coração aberto. Naquele dia, ouvi Deus dizer ao meu coração algo mais ou menos assim: “Não foi por causa dos perdidos que o mandei para a África. Mandei que fosse para aí por minha causa. Esse povo aí merecia o inferno! Mas eu os amo. Suportei as agonias do inferno por eles. Não o enviei para esse lugar por causa deles. Enviei-o por minha causa. Será que não mereço a recompensa pelo meu sofrimento? Não mereço ter comigo aqueles por quem morri?” Isso ocasionou uma reviravolta em tudo! Mudou tudo! E consertou tudo! Agora eu não estava mais trabalhando para o Mica, recebendo em pagamento dez siclos de prata e uma camisa. Estava servindo ao Deus vivo! Não me achava na África por causa dos perdidos. Estava ali por causa do Salvador que passara pelas agonias do inferno por mim que não merecia seu sacrifício. Mas ele merecia ter consigo aquelas pessoas, pois morrera por elas. Deu para entender? Vamos resumir, vamos sintetizar. O cristianismo prega o seguinte: “A finalidade da existência humana é glorificar a Deus”. Já o humanismo diz: “A finalidade da existência humana é buscar a felicidade”. Essa linha de pensamento foi gerada no inferno e implica a divinização do homem. A outra originou-se no céu e significa a glorificação de Deus! Numa, temos um levita servindo um Mica. Na outra, temos um coração que se reconhece indigno, servindo ao Deus vivo. E isso é a maior honra que uma pessoa pode ter no universo. E você? Por que razão se arrependeu de seus pecados? Eu gostaria de ver algumas pessoas se arrependendo de seus pecados de acordo com a mensagem bíblica. George Whitefield era um que conhecia essa verdade. Certa vez, no parque municipal de Boston, falando a vinte mil pessoas, ele disse o seguinte: “Escutem aqui, pecadores. Vocês são monstros! São monstros de iniquidade! Merecem é o inferno! E o seu pior crime é que, sendo criminosos, ainda não tiveram a graça de enxergar isso!” “Se não chorarem pelos seus pecados, pelos crimes que cometeram contra um Deus santo, George Whitefield irá chorar por vocês!” Em seguida, tombou a cabeça para trás e soluçou como uma criancinha. Por quê? Porque aquelas pessoas corriam o perigo de ir para o inferno? Não! Porque elas eram monstros de iniquidade que nem ao menos tinham consciência de seu pecado, nem se preocupavam com seus crimes. Está vendo a diferença? Está vendo a diferença? A diferença é a seguinte: hoje os indivíduos estão tremendo de medo porque irão sofrer no inferno. Entretanto eles não têm a menor consciência da enormidade de sua culpa!! Nem da enormidade de seu crime!! Não têm a menor consciência do insulto que estão fazendo a Deus!! Só estão tremendo porque vão queimar a pele no inferno. Estão com medo. E eu quero declarar aqui que apesar de o medo ser um ótimo instrumento a fim de nos preparar para receber a graça de Deus, não é o ponto onde devemos parar. E o Espírito Santo não para nele. Essa é a razão por que só podemos receber a Cristo como nosso Salvador depois que nos arrependemos. E só podemos nos arrepender, depois que nos convencemos de nossos pecados. Essa convicção é uma operação do Espírito Santo. Ele faz o pecador entender que... Os pregadores Essa é a diferença entre a pregação de João Wesley e a que se faz neste século. Wesley pregava a justiça e exaltava a santidade de Deus. Ele costumava pregar sermões de duas ou três horas ao ar livre. Em suas mensagens, ele ressaltava a santidade de Deus, a lei de Deus, a retidão de Deus e a sabedoria dos preceitos divinos. E apontava também o fato de que a ira de Deus era justa. Em seguida, falava aos pecadores sobre a gravidade dos seus crimes, da sua anarquia, da sua rebeldia, sua traição contra Deus. E o poder de Deus descia sobre o povo com tal intensidade que, segundo fontes confiáveis, em certa ocasião, quando a multidão se dispersou, constatou-se que havia mil e oitocentas pessoas caídas no chão, totalmente inconscientes. É que elas tinham recebido uma revelação clara sobre a santidade de Deus. Em presença desse fato, haviam enxergado a enormidade de seus pecados. O Senhor penetrara na mente e coração delas de tal forma que caíram no chão. E não foi só nos dias de João Wesley que tais coisas aconteceram. Ocorreram fatos semelhantes aqui também, nos Estados Unidos, em Yale, em New Haven, Connecticut. Certo homem de nome John Wesley Redfield teve um ministério em New Haven e arredores, durante três anos. Esse ministério teve seu ponto alto na série de grandes cultos realizados em Yale, ainda no século XVIII. Naquela época, quando um policial via um indivíduo caído no chão, costumava cheirar o hálito dele para ver se havia bebido. Se sentisse cheiro de álcool, levava-o para a cadeia e o trancafiava ali. Se não sentisse, compreendia que ele estava com a “doença de Redfield”. Caso a pessoa tivesse essa “doença”, bastava que a levasse para um local silencioso e a deixasse ali, até que voltasse a si. Se alguém era alcoólatra, largava a bebida. Se era mau, parava com sua crueldade. Se era imoral, abandonava a imoralidade. Se roubava, devolvia aquilo que tinha furtado. É que havia sido conscientizada da santidade de Deus e enxergado a enormidade de seu pecado. Devido ao peso do seu sentimento de culpa, o Espírito de Deus o havia levado para um estado de inconsciência. Assim, de algum modo, por causa da presença do poder de Deus ali derramado, os pecadores se arrependiam de seus pecados e recebiam a Cristo como Salvador. A diferença Havia ali uma diferença. Não se tratava de convencer um homem bom que ele se achava em apuros por causa de um Deus “maldoso”. Não. Era convencer um homem mau que ele merecia a ira de um Deus bondoso. A consequência disso era que eles se arrependiam. O arrependimento levava à fé e esta à vida eterna. Amigo, se o único motivo por que você se arrependeu de seus pecados foi esse, não ir para o inferno, você não passa de um levita servindo a Deus por dez siclos de prata e uma camisa! É só isso! Está querendoservir a Deus apenas porque “o Senhor lhe fará bem”. O coração que realmente se arrepende é aquele que já enxergou a enormidade do erro que é “bancar” Deus e negar a esse Deus reto e justo a adoração e a obediência que ele merece. Por que o pecador deve abandonar todos os seus pecados? Por que temos de apelar a ele para que os largue? E por que, quando ele recebe a Cristo, deve fazer a reparação de seus erros? Porque Deus merece a obediência que ele exige de nós!!! Já conversei com pessoas que não tinham certeza de que Deus perdoara seus pecados. Muitas querem primeiramente se sentir seguras, para depois fazerem um compromisso sério com Cristo. Contudo estou convencido de que os únicos que experimentam o novo nascimento, que recebem no coração o testemunho do Espírito de Deus, são aqueles que – quer o digam ou não – oram a Jesus Cristo mais ou menos nos seguintes termos: “Senhor Jesus, enquanto eu viver, vou amar-te, servir-te, obedecer-te e fazer aquilo que quiseres que eu faça, mesmo que no fim eu vá para o inferno. E o farei simplesmente porque o Senhor merece que eu o ame, sirva e lhe obedeça. E não estou absolutamente tentando fazer nenhum ‘negócio’ contigo.” Dá pra ver a diferença? Está percebendo a diferença, meu irmão? Vê como um levita trabalhando para ganhar dez siclos de prata e uma camisa, ou um Mica construindo uma capelinha porque “o Senhor lhe fará bem” são diferentes daquele que se arrepende para a glória de Deus? Por que uma pessoa deve abraçar a cruz de Cristo? Por que devemos morrer com Cristo? Por que devemos nos identificar com o Senhor na sua cruz, sermos sepultados e ressuscitar? Vou dizer por quê. Porque essa é a única maneira pela qual um ser humano pode glorificar a Deus. Se alguém disser que a razão para essa identificação é ter paz, fama, bênçãos, alegria ou sucesso, não passará de um levita servindo a Deus por dez siclos de prata e uma camisa. Meu jovem, existe apenas uma razão para você abraçar a cruz. É que enquanto você não chegar a um ponto em que se acha em união com Cristo na sua morte, estará roubando ao Filho de Deus a glória que ele pode receber com seu viver. Nenhuma carne se gloriará à vista de Deus. Enquanto não entendermos a obra santificadora que Deus realiza em nós por intermédio do Espírito Santo, ou seja, nossa união com Cristo em sua morte, sepultamento e ressurreição, estaremos servindo a ele com recursos próprios. Refiro-me à força humana, à natureza humana, à energia humana e à personalidade humana. E tudo isso já foi sentenciado à morte. Deus não recebe glória desses dotes! Portanto, a razão pela qual vamos à cruz de Cristo não é que obteremos vitória. É verdade que teremos a vitória, sim. Tampouco é que teremos alegria. Teremos alegria, sim. Mas o motivo certo para abraçarmos a cruz e prosseguirmos em frente até podermos afirmar como Paulo “Estou crucificado com Cristo” (Gl 2.20), não é aquilo que podemos ganhar por causa dessa atitude. É aquilo que Cristo vai receber com esse gesto. É para a glória de Deus. E, pela mesma razão, por que não buscamos fervorosamente experimentar a plenitude do Espírito Santo? Por que não estamos buscando firmemente conhecer a plenitude de Cristo? Vou dizer por quê. Porque o único modo pelo qual Jesus Cristo recebe glória de uma vida remida com seu precioso sangue é o fato de ele poder encher essa vida com sua presença e viver aqui no mundo por meio dela. A característica central de nossa fé não é atuar mecanicamente, como se fôssemos um levita contratado para servir a Deus. Não! Não! O cerne de nossa fé é chegarmos a um ponto em que reconhecemos que não podemos fazer nada. A única atitude que podemos tomar é apresentar nosso ser ao Senhor e dizer: “Senhor Jesus, vai ser preciso que o Senhor encha meu ser. E tudo que eu tiver de realizar, terá de ser realizado por ti e para ti.” Infelizmente, porém, sei de muita gente que está tentando experimentar a plenitude de Deus para poder usar Deus. O poder do Espírito Certa vez, um jovem pastor veio conversar comigo em Huntington, na Virgínia Ocidental, e me disse: – Pastor Reidhead, tenho uma igreja ótima. Temos uma escola dominical maravilhosa, um programa de rádio que está crescendo muito. Contudo sinto que eu mesmo preciso de algo. Falta-me alguma coisa. Necessito ser batizado com o Espírito Santo. Alguém me disse que Deus havia abençoado muito o senhor. Então será que o senhor pode me ajudar? Olhei para aquele moço e sabe com quem o achei parecido? Comigo! Parecia muito comigo. Vi nele o mesmo que via em mim. É possível que alguns de vocês tenham pensado que eu ia dizer “via em mim antes”. Não. Escutem, amados, quem já enxergou a si mesmo como realmente é saiba que nunca será diferente do que era. Pois em mim e na minha carne não há nada de bom (Rm 7.18). Aquele pastor se parecia comigo. É como um homem que está num carro grande e luxuoso que entra num posto de gasolina e diz ao frentista: “Complete! Ponha a gasolina mais potente que você tiver aí!” Era essa a impressão que ele dava. Queria poder para realizar o seu programa. Deus nunca será o meio para alguém alcançar os próprios fins. Então lhe respondi: – Sinto muitíssimo, mas creio que não posso ajudá-lo. – Por quê? Indagou ele. – Acho que ainda não está preparado, expliquei. Parece que você se vê como alguém que tem um carrão. Você falou de sua igreja, seus trabalhos, seu programa de rádio, sua escola dominical. Tudo muito bom. Percebe-se que você já está indo maravilhosamente bem sem o Espírito Santo. Foi isso que um crente chinês disse, certa vez, quando regressou a seu país, depois de ter estado nos Estados Unidos. Perguntaram-lhe: – O que mais o impressionou lá naquele país? E ele respondeu: – As coisas maravilhosas que os americanos conseguem realizar sem Deus. E era isso que acontecia com o jovem pastor. Ele já tinha grandes realizações sem Deus, como ele próprio reconheceu. Agora queria um toque de poder para atingir seus fins de um modo ainda melhor. Então eu lhe disse: – Não, não. Você está ao volante do carro, dizendo para Deus: “Senhor, dá-me poder para que eu possa prosseguir.” Assim não vai dar certo. Você terá de passar ao banco do carona. Mas eu conhecia bem o coração daquele “espertinho”, porque eu me conhecia. E continuei. – Não; assim também nunca vai dar certo. Você terá de passar para o banco de trás. Quase que eu o via inclinando-se um pouco para a frente e segurando o volante com força. – Não, prossegui. No banco de trás também não vai dar certo. Sabe o que você terá de fazer para que Deus possa operar algo em sua vida e ministério? – O quê?, quis saber ele. – Tem de sair do carro, respondi, pegar a chave e abrir o porta-malas. Depois tem de voltar e entregar a chave do carro para o Senhor Jesus. Em seguida, terá de entrar no porta-malas e fechá-lo bem fechado. A seguir, vai dizer para ele: “Senhor, enche-o com o que o Senhor quiser. Agora o Senhor vai dirigi-lo. Daqui para a frente, é contigo, Jesus!” É por isso que muita gente não obtém a plenitude de Cristo. Querem se tornar um levita, ganhando dez siclos de prata e uma camisa. Estão trabalhando para Mica, mas acham que se tiverem o poder do Espírito Santo poderão trabalhar para a tribo de Dã. Isso nunca dá certo. Nunca. Existe apenas um motivo pelo qual Deus precisa de nós. É só para nos levar ao ponto em que nos arrependamos e ele possa nos perdoar, para sua glória. E pela vitória, chegamos ao ponto em que morremos para que ele possa reinar. E pela plenitude, Jesus Cristo pode viver e atuar em nós. Nossa atitude tem de ser a mesma do Senhor Jesus que disse: “Nada faço por mim mesmo” (Jo 8.28). Não podemos falar por nós, nem fazer planos para nossa vida. A única razão de nossa existência é a glória de Deus em Jesus Cristo. Suponhamos que eu diga para alguém: “Aceite a salvação em Cristo para que você vá para o céu. Identifique-se com a cruz de Cristo para ter alegria e vitória. Receba a plenitude do Espírito Santo para que se sinta realizado espiritualmente.” Se eu disser isso, estarei caindo nas malhas do humanismo. E quero dizer aos irmãos crentes: identifiquem-se com a cruz de Cristo. Unam-se ao Senhor em sua morte. Assumam todo o significado da morte do eu, apenas para que ele receba toda a glória. E digo mais, irmãos, se alguém ainda não experimentou a plenitude do Espírito Santo, venha ao Senhor, apresente-lhe seu corpo como um sacrifício vivo e permita que ele o encha para que assim se realize em você o propósito pelo qual Jesus veio ao mundo. Desse modo, ele receberá glória por meio de sua vida. Portanto, não se trata do que nós vamos obter de Deus, mas do que ele vai obter de nós. Vamos acabar, de uma vez por todas, com esse cristianismo utilitarista, em que vemos Deus apenas como um meio pelo qual atingiremos objetivos pessoais. Passemos a vê-lo como o glorioso fim, que é o que ele é. Peçamos demissão. Digamos a Mica que “acabou”, que não vamos mais ser aquele levita trabalhando por dez siclos de prata e uma camisa. Vamos dizer à tribo de Dã que nosso vínculo com ela terminou. Em seguida, lancemo-nos aos pés do Filho de Deus que foi traspassado. Digamos-lhe que iremos amá-lo, obedecer-lhe e servi-lo enquanto vivermos, só porque ele o merece! O Cordeiro que foi morto! Dois jovens cristãos morávios ouviram falar que numa das ilhas das Índias Ocidentais havia um ateu, um inglês, que mantinha ali entre dois e três mil homens como escravos. E ele dizia: “Nesta ilha, nunca haverá um pregador, nem um pastor. Se por acaso um navio naufragar aqui e houver nele um religioso, podemos até deixar que venha para cá, mas o manteremos numa casa separada até que ele possa ir embora. Entretanto nunca vamos permitir que ele fale de Deus a nenhum de nós. Não quero saber mais dessas besteiras.” Assim, naquela ilha do Atlântico, estavam três mil escravos, trazidos das selvas da África. Ali eles iriam viver e morrer, sem nunca ouvir falar de Cristo. E aqueles dois jovens morávios, com vinte e poucos anos, ouviram essa notícia. Então eles se venderam como escravos àquele fazendeiro britânico. Com o dinheiro que receberam, puderam comprar a passagem, pois o homem só pagava aquele mesmo valor por qualquer escravo e não providenciava o traslado para a ilha. No dia em que iam partir, os irmãos de sua comunidade vieram de Herrenhut até o porto para se despedirem deles. Como os jovens haviam se vendido como escravos para o resto da vida (e não apenas para um período de quatro anos), nunca mais retornariam à sua terra. É que assim, sendo escravos, poderiam viver como crentes ali onde aqueles outros se encontravam. Quando o navio, levado pela maré, começou a se afastar do cais, em Hamburgo, entrando nas águas do mar do Norte, os dois iam nele. Seus familiares choravam, pois sabiam que nunca mais iriam vê-los. E muitos deles não entendiam por que os dois jovens estavam partindo assim. Até questionavam se aquilo era mesmo sensato. À medida que a distância ia aumentando, as casas da beira do cais iam sumindo da vista e os jovens percebiam a separação crescendo. Então um deles passou o braço pelo do colega, ergueu o outro braço e gritou: “Que o Cordeiro que foi morto receba a recompensa de seus sofrimentos!” Foram as últimas palavras que aqueles irmãos ouviram dos lábios dos jovens. E elas se tornaram o apelo central das missões morávias. Na verdade, elas são a única razão para nossa existência. Que o Cordeiro que foi morto receba a recompensa de seus sofrimentos! |
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